O cérebro da criança – parte 4
AS MEMÓRIAS E O CÉREBRO

Continuando nossos textos sobre o cérebro da criança, que tem como subsídio o livro de mesmo nome de Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson, hoje falaremos sobre as memórias implícitas e as explícitas.

Para começar, devemos saber que memória é, basicamente, associação. Trata-se de ligações no cérebro.

Mas a memória não é uma recuperação exata dos eventos do passado. Sempre que recuperamos uma memória, nós a alteramos. Nosso estado de espírito, quando a memória foi codificada, e o estado de espírito de quando a recordamos influenciam e modificam a própria memória.

Há dois tipos de memória: implícita e explícita.

A memória implícita codifica nossas percepções, emoções e sensações corporais. Ela nos faz formar expectativas sobre a forma como o mundo funciona com base em nossas experiências prévias.

Se você, por exemplo, abraça seu filho toda vez que chega em casa, ele terá um modelo mental cheio de afeto e conexão. Ao ouvir seu carro chegando na garagem, o corpinho dele reagirá de forma responsiva a essa memória criada em seu cérebro.

A memória implícita é basicamente um processo evolutivo que nos mantém seguros e fora de perigo. Nosso cérebro está sempre conferindo tudo e dizendo: “isso é bom” ou “isso é ruim”. No entanto, é necessário “dominarmos” essa reação cerebral quando a memória implícita está guardando experiências ruins que podem “bloquear” novas oportunidades.

As memórias implícitas são capazes de criar medo, fuga, tristeza e outras emoções ou sensações corporais desagradáveis.

Os pais, normalmente, gostariam que seus filhos simplesmente “esquecessem” essas experiências dolorosas. No entanto, é fundamental que os pais ensinem a seus filhos maneiras saudáveis de integrar as memórias implícitas e explícitas, transformando, assim, experiências dolorosas em fontes de poder, auto compreensão e gerenciamento de emoções.

Uma boa técnica de integração é a do “controle remoto da mente”, para reproduzir lembranças implícitas, fazê-las explícitas e poder “dominá-las”.

Por exemplo, uma criança que sempre amou as aulas de natação e, depois de uma experiência desagradável com um professor, começa a resistir à prática, ainda que mude de instrutor ou de escola. Nessa técnica, o pai ou a mãe sugerem à criança que conversem sobre o episódio como se estivessem com um controle remoto na mão e que, com ele, pudessem voltar, acelerar, pausar, pular cenas do ocorrido. Dessa forma, é possível a criança falar sobre uma situação desagradável com a segurança de que poderá “ter o controle” sobre o acontecido. Então, poderá olhar para determinada experiência que a assustava (ou irritava, ou frustrava) sem ter que revivê-la cena por cena. Essa “técnica” permite a reelaboração do episódio até que consiga ver um sentido nas experiências dolorosas passadas, para as ressignificar no presente.

Em seguida, essa criança estará preparada para “dizer” ao seu cérebro: “Cérebro, obrigada por tentar me fazer segura e me proteger, mas não preciso mais sentir medo de fazer natação. Estou em uma nova escola e com um professor mega legal!”.

Porém, para serem capazes de usar essa técnica, as crianças precisam ter a habilidade de recordar. Uma estratégia para estimular essa habilidade é a de tornar a recordação parte da vida diária da família.

Você pode fazer isso ajudando seu filho a falar sobre suas experiências do dia a dia, fazendo perguntas que o faça recordar os acontecimentos. Com crianças bem pequenas você deve ir direto ao ponto, perguntando, por exemplo: “Você foi à casa da vovó hoje? O que aconteceu quando chegamos lá?”. Com crianças mais velhas, você pode perguntar detalhes sobre uma atividade que tenham feito online ou um filme a que assistiram.

Muitas vezes, as crianças pequenas resistem a contarem o que aconteceu na escola ou em qualquer outro lugar. Você pode transformar sua pergunta em uma brincadeira de adivinha e, sem perceber, ela acabará contando o que fez. Por exemplo, você pode perguntar ao seu filho que ficou com a babá durante a tarde enquanto você trabalhava home office: “Conte duas coisas que aconteceram hoje enquanto você estava com  a babá e uma que não aconteceu que eu vou tentar adivinhar quais aconteceram mesmo!”

 Vocês podem ainda ver álbuns de fotografias antigos e recordarem juntos os momentos que tiveram; podem assistir a vídeos antigos e até, por que não, escrever um “livro de memórias da pandemia”! Crianças mais velhas podem escrever e as menores podem desenhar suas experiências.

Enfim, aproveitem essas dicas tão integrativas para criar não apenas cérebros capazes de integrar memórias implícitas e explícitas para resolverem seus conflitos; mas também, para que vocês se conectem e estejam cada vez mais próximos como membros de uma família que se ama!